segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O lar e o bar.

Pesquisa-se, por conta da lei que bane o álcool à beira de estradas e do recenseamento do IBGE, quantos são os bares do Brasil.
Os pesquisadores chegaram a uma conta próxima do milhão – 976 mil bares, 3 milhões de empregados, mais os donos. Sem contar, é claro, os mais de cem bares “temporários” abertos em Floripa a cada verão.
Uma conta bem modesta. Depois de cinco anos de Yeltsin, 15 de Vladimir Putin e cinco de Medvedev, “Mama” Rússia abriga nada menos do que 8 milhões de bares, aí incluídos os botequins dos romances de Dostoievski e Tolstoi. Nos EUA, são 3 milhões de bares. E na Escócia, pequenininha como é, são mais de 400 mil “balcões”. Parece que todos os Johnnie Walkers da Terra já acordam chupando aquele magnífico líquido cor de âmbar – e usando aquele proverbial kilt xadrez...
Na verdade, bar no Brasil é o que não falta. Todo dia estão abrindo ou fechando um. Em 1796 – conta mestre Oswaldo Cabral, no seu magnífico Memória de N. S. do Desterro –, a vila possuía 666 casas, um triplo seis – esse número demoníaco. Dessas vivendas, 18 eram lojas do comércio e 44 eram botequins. Ou seja: um boteco para cada 85 dos seus 3.757 habitantes. Vale dizer: a turma era boa de copo.
Em torno de uma mesa de bar, já se conspirava contra o governo ou... contra os maridos de mulheres bonitas. Nos bares, edificavam-se calúnias, ateavam-se infâmias, blasfemava-se contra Deus e o próximo. Nem por isso, os botecos cerravam suas portas por causa da presença de bêbados.
O problema, a sério, não é a quantidade de bares. Mas a qualidade dos bêbados...
Sendo os conventos e os mosteiros as casas da virtude, esses altares não são, contudo, infensos a Belzebus. Assim como não é impossível que algum arcanjo tenha ido parar no inferno – por erro no endereçamento do código postal.
Ainda não adquirimos a maioridade etílica de uma Rússia, uma Alemanha, uma Inglaterra – onde os bêbados não somente são cidadãos respeitáveis como presidem a República (Yeltsin, nos anos 1990); fundam a Oktoberfest (o príncipe Ludwig da Baviera no século 19); ou salvam o império britânico do nazismo, como o velho e esponjoso Churchill nos anos da Segunda Guerra Mundial.
Não há nada como um boteco bem brasileiro, onde se bebe em pé, no balcão, de forma que o copo se transforme num aposto verbal, uma extensão da própria linguagem. Nem se poderia, a não ser num botequim nacional, encomendar a cerveja da rua, comandando ao barman:
– Mais duas louras!
Se elas chegarem requebrando os quadris, melhor ainda.
Essas casas, os bares, são, sem dúvida, muito menos corruptas do que muita Casa Civil.

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